Qualidades de um ateliê na Terapia Artística

Um ateliê de Terapia Artística, pode ser um ateliê de arte, com seus cavaletes, prateleiras com materiais, uma mesa para o trabalho, algumas telas armazenadas para serem futuramente trabalhadas ou porque já foram concluídas como trabalho artístico, ou também pode ser uma sala de consultório. Estes ateliês possuem uma característica por assim dizer, terapêutica, a qual exige um bem-estar maior, talvez um olhar para a natureza lá fora ou mesmo uma planta no canto da sala, mas que possa trazer esse contato do paciente com a vida. É importante que tenha uma cadeira confortável com uma boa relação de altura com a mesa, esta tem que estar limpa e livre de objetos que não sejam para o trabalho do dia, onde o paciente possa expressar as suas necessidades.

O ateliê terapêutico é um local em que a pessoa traz suas dores e seus questionamentos, onde ao mesmo tempo em que esta tenha coisas para contemplar, olhar e apreciar, também tenha um ambiente propício para ser acolhida e ouvida.

A proposta de um ateliê como este é que não seja como uma sala de hospital com paredes frias e de ambiente fechado, para evitar assim a possibilidade deste paciente se sentir doente ou ainda mais doente.

Um ateliê de arte com um trabalho ainda sendo feito, desde que seja permitido pela pessoa que o faz e que também não intimide quem o observa, traz para a pessoa um contato íntimo e humano acontecendo em processos, não um lugar onde encontro respostas rápidas e prontas, mas sim para entrar em um processo que abra portas para novas possibilidades.

Possibilidades de materiais desconhecidos, em formas e cores nunca experimentadas, podendo o paciente chegar a dizer: “agora eu vou entrar em um mundo que eu não conheço, porque o mundo conhecido é muito dolorido, anda sendo muito dolorido para mim”. Então a abertura para o novo e o desconhecido se torna entusiasmante, quando logicamente o terapeuta tem a experiência suficiente em sua abordagem para não se tornar assustador. Tal abordagem, acontecendo neste ambiente de criatividade e expressividade, vira uma brincadeira de ser artista e faz bem brincar de ser artista.

Minha narrativa aqui não tem a intensão de fazer apologia ao uso de ateliês artísticos para terapia, mesmo porque os terapeutas artísticos sabem muito bem o que representa sacrificar muitas vezes sua arte para o bem de seu paciente. Em alguns casos clínicos serve e muito bem, espaços mais isentos de materiais, mas sempre acolhedor, para trazer assim objetividade e foco.

O terapeuta precisa estar muito atento ao que realmente é importante para seu paciente começando pelo espaço. Seja um ateliê artístico, ou de consultório ou ainda um ateliê com estas duas qualidades separadas em ambientes.

Outro tipo de ateliê é o de escola de terapia artística, como o da Escola Sagres por exemplo, ele é para aprender uma profissão, então obviamente ele tem que ser um espaço grande, muitas mesas e cadeiras e precisa abarcar um certo fluxo de pessoas, tendo assim um perfil diferenciado do que tenho narrado, mesmo assim percebemos nele várias janelas para o jardim ou seja, vemos a abertura para a natureza, para a vida.

Concluindo, seja um ateliê de arte, ou um de consultório, seja para se trabalhar em uma linha específica de Terapia Artística, para clinicar ou ensinar, o calor humano é imprescindível. Falo de espaços ideais, mas não desconsidero em hipótese algumas necessidades verdadeiras de atuação em lugares improváveis e que possam ser eficientes, acredito que até embaixo de uma árvore, em uma praça ou mesmo na cama de um hospital possamos nós terapeutas realizar um lindo trabalho que ajude profundamente alguém que esteja precisando.

O mundo contemporâneo precisa de mais calor, precisa de arte nos corações, passamos por uma época em que o frio das telas eletrônicas diárias provocam estados intensos de ansiedade e depressão. Precisamos criar e expressar mais em nosso dia a dia de forma plástica e real. Que o processo criativo possa ser nosso ponto de harmonia com a vida, com a saúde. Que as dores e os desconfortos possam ser a fantasia primordial e inspirativa para a transformação do ser em um novo ser, mais harmonizado com o viver.


Alexandre Almeida

Professor na Escola de Terapia Artística Sagres

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